O Malho e o Cinzel

O malho, ou maço, e o cinzel, surgem na Ordem Maçônica como os instrumentos dinâmicos, de ação conjunta, empregados pelos aprendizes para desbastar a pedra bruta. Esses instrumentos, que simbolizam a razão e a inteligência, embora utilizados de forma associada, tem funções distintas no trabalho de aprimoramento do ser, rumo à perfeição relativa que nos cabe na condição de filhos de Deus.

Ao maço compete a representação de nossa vontade e de nossos instintos através da força, quer seja ela física, moral, mental ou espiritual. A vontade é o combustível que nos move na direção de nossos interesses e conquistas e é através da vontade representada pela ação de golpear o maço, é que descarregamos nossa energia na intenção de alcançar nossos objetivos.

Símbolo do trabalho (pelo seu dinamismo), do poder (pela sua força) e da perseverança (pela constância dos golpes) o maço é instrumento ativo na construção do homem novo a que todos nós desejamos alcançar.

Já o cinzel, ferramenta de corte e precisão, embora tão dinâmico quanto o maço, carrega consigo, entre tantos outros atributos a humildade e submissão ao aceitar-lhe os golpes, mostrando sua sabedoria e inteligência, pois conhece sua função na obra individual de construção e sabe que sozinho pouco pode fazer.

É elemento transformador, a partir do momento em que recebe, concentra e dirige, numa condução guiada e inteligente, a força que lhe é disparada. É mecanismo transformador, pois tem a capacidade de perceber o que precisa ser desbastado em nós, nossas imperfeições, fraquezas e vaidades.

Representa, ainda, a precisão, o discernimento e o amadurecimento do ser que deseja evoluir, pois ao mesmo tempo em que recebe do maço a força da vontade, aponta focado para os vícios e defeitos que precisam ser retirados de nós a golpes sucessivos de trabalho consciente na busca do aprimoramento moral.

Maço e cinzel, símbolo do equilíbrio, trabalham juntos, cada um oferecendo o que tem de melhor, em proveito de um objetivo comum. Parecem saber que sozinhos pouco ou nada podem fazer, mas que unidos são fortes apresentam resultados excepcionais. Assim deve ser conosco na vida diária: buscar o equilíbrio, a ajuda mútua e a união de esforços para nossa evolução espiritual e de nossos irmãos.

A Câmara de Reflexões

Todo profano ao ser iniciado na Ordem Maçônica passa momentos dentro da Câmara de Reflexões. Como o próprio nome orienta, trata-se de uma sala especial e isolada onde o candidato a aprendiz é colocado e convidado a refletir. Nesse ambiente que se apresenta desprovido de luminosidade mediana, suas paredes são negras e nele encontram-se diversos objetos, dos quais apenas uma mesa e uma cadeira nos são triviais. Todos os demais foram colocados com a intenção de fazer-nos pensar no porquê estamos ali e nossa relação com cada peça material que se encontra à disposição de nosso olhar.

Lá dentro, entre tantos outros objetos, nos deparamos com a representação de um crânio humano o que nos faz lembrar da inconstância da vida. E mais, se, por um lado o ambiente escuro faz alusão à nossa cegueira moral, por outro lado, a singela luminosidade que permite-nos enxergar o ambiente representa os acanhados conhecimentos adquiridos por nós nessa oportunidade enquanto encarnados. Leva-nos, ainda, a pensar que a vida na Terra é apenas uma fração de tempo se comparada a eternidade que espera o espírito no seu regresso.

O anagrama inscrito nas paredes: VITRIOL, convida-nos a irmos além das aparências rasas que o mundo oferece para irmos no interior de nós mesmos buscarmos com sabedoria o discernimento espiritual e moral que está a nossa disposição. O testamento, sobre a mesa, aguardando nossas respostas e assinatura, lembra-nos dos nossos deveres.

Na Câmara de Reflexões, fazemos uma viagem introspectiva onde, de forma natural, somos levados a pensar nos valores espirituais, nas obrigações morais e na dualidade vida e morte. Aliás, antes mesmo de nela adentrarmos temos nossos pertences metálicos retirados, símbolo de que não os trouxemos ao mundo e não os levaremos conosco quando aqui não mais estivermos.

A Câmara de Reflexões representa um momento introspectivo e singular na vida de cada iniciado, onde podemos encontrar em nosso íntimo os verdadeiros valores, os que queremos mudar e os que devemos seguir, valores esses que já se encontram dentro nós, aguardando apenas nosso sincero desejo e vontade ativa para desabrocharem nessa nova realidade a qual adentramos. A Câmara representa uma transição de estágio no nosso aprimoramento como ser humano, passamos por uma espécie de morte para nos regenerarmos, ou simplesmente, renascermos sob a luz do conhecimento e da fraternidade.

Uma sala pequena, sem janelas, escura, desprovida de conforto, entretanto repleta de símbolos e significados. Nela permanecemos breves instantes, porém, certamente, quem sai de lá já não é mais o mesmo que que por ela adentrou.

A Pedra Bruta

A pedra bruta simboliza o começo do aperfeiçoamento moral a que todo aprendiz é convidado a buscar. Nela, o recém iniciado, trabalhará objetivando a extinção de seus vícios adquiridos ao longo da sua vida antes da maçonaria. A pedra bruta representa o homem do mundo, imerso na rotina, embebido na vida ilusória, arrastado pelas paixões e vaidades de toda ordem, que mais obedece aos instintos do que a razão, representa enfim, nosso estado de imperfeição.

Sendo assim, o ofício do aprendiz que se coloca disposto a autotransformação é integrado, sendo ele o próprio artífice da mudança, constituindo-se ao mesmo tempo em trabalhador, matéria prima e ferramenta, a desbastar da pedra bruta, que é ele mesmo, as imperfeições que o distanciam do Criador.

No momento em que reconhecemos nossas falhas estamos a um passo de começar a trabalha-las, empregando nosso esforço na intenção de atingir o progresso, isso porque só podemos modificar aquilo que de fato conhecemos. Essa tarefa baseia-se na eliminação daquilo que identificamos como incorreto na nossa conduta, nocivo nas nossas ações, e recorrente dentre nossas fraquezas, o que vai nos exigir muita disciplina, por tratar-se de um aprimoramento permanente.

Aparando as asperezas

A arte de aparar as asperezas da pedra bruta é um caminho ininterrupto ao alcance daquilo que se considera como o ideal de moralização integral do ser. Embora o trabalho de lapidação da pedra bruta seja a simbologia maçônica ligada ao aprendiz, não se esgota nele, e sim, trata-se de um processo contínuo de aprendizagem porque o ser humano está em constante aprimoramento.

Esse trabalho de lapidação da pedra bruta não busca chegar a nenhuma forma física predefinida, entretanto visa formatar moralmente o indivíduo, tanto melhor quanto possa, esculpindo-o e libertando-o das asperezas de sua personalidade, deixando manifestar-se o sentimento que carregamos em nosso íntimo de alcançarmos a perfeição relativa que se encontra latente em nossas almas.

“Em cada bloco de mármore vejo uma estátua, vejo-a tão claramente como se estivesse na minha frente, moldada e perfeita na pose e no efeito. Tenho apenas de desbastar as paredes brutas que aprisionam a adorável aparição para revelá-la a outros olhos como os meus já a vêem.” (Michelangelo)